|
A Importância
da Fase “nos Braços/Colo”
Por Jean Liedloff
www.continuum-concept.org
Publicado inicialmente no magazine “Mothering”, inverno de
1989
Nos
dois anos e meio que vivi entre indígenas da idade da pedra na
selva da América do Sul (não de uma vez só, mas em cinco
expedições separadas com um bom tempo entre elas para reflexão),
cheguei a conclusão que nossa natureza humana não é o que
fomos criados para crer que seja. Bebês da tribo Yequana, longe
de necessitar paz e sossego para adormecer, tiraram sonecas
felizes cada vez que ficaram cansados, enquanto os homens,
mulheres ou crianças que os estavam carregando, dançavam,
corriam, caminhavam, berravam ou remavam canoas.
Crianças pequenas brincavam juntas sem brigar ou
discutir, e obedeciam a seus pais imediatamente e de bom grado.
A
noção de castigar uma criança aparentemente nunca ocorreu a
estas pessoas, nem o seu comportamento mostrou algo que poderia
ser chamado verdadeiramente de permissivo. Nenhuma criança
pensava em ser inconveniente, interrompendo ou ser servida por
um adulto. E na idade de quatro anos, as crianças estavam
contribuindo mais para a força de tarefas de sua família do
que causando
trabalho para os outros.
Bebês
carregados quase nunca choravam e, surpreendentemente, não
mexiam seus braços, não chutavam, não dobravam suas costas
para trás, ou flexionavam seus pés ou mãos. Sentavam
quietinhos nos seus slings ou dormiam no quadril de alguém –
acabando com o mito que bebês precisam se flexionar para se
“exercitar”. Também
não vomitavam a não ser quando extremamente doentes e tampouco
sofriam de cólicas. Ao
levar um susto nos primeiros meses de engatinhar e caminhar, não
esperavam alguém socorrê-los e sim procuravam suas mães ou
quem estava tomando conta deles para a dose de tranqüilidade
que precisavam antes de retomar suas explorações. Sem supervisão,
mesmo os mais miudinhos raramente se machucavam.
Será
que sua “natureza humana” é diferente da nossa? Algumas
pessoas realmente imaginam que seja, mas, certamente, somente há
uma espécie humana. O
que nos podemos aprender com a tribo Yequana?
Nossas
expectativas inatas
Basicamente,
podemos tentar compreender completamente o poder de formação
do que eu chamo a fase “nos braços/colo”.
Começa no nascimento e termina com o inicio de
engatinhar, quando a criança pode partir e retornar a seu bel
prazer para o colo da pessoa que cuida dela. Consiste,
simplesmente, em o bebê ter contato 24 horas com um adulto ou
uma criança mais velha.
Inicialmente,
eu simplesmente observei que esta experiência “nos braços/colo”
teve um efeito saudável impressionante nos bebês e que
eles não deram trabalho para serem cuidados. Seus corpinhos
eram macios e se adaptaram a qualquer posição conveniente aos
seus carregadores – alguns deles até deixaram seus bebês
pendurados nas costas segurando-os pelos pulsos. Não pretendo
recomendar esta posição, mas o fato que seja possível,
demonstra as muitas posições que dão conforto a um bebê.
Contrastando com isto, cito o desconforto desesperado de
bebês colocados cuidadosamente num berço ou carrinho,
totalmente cobertos e enrijecidos pelo desejo da presença de um
corpo vivo que por natureza é seu lugar correto – um corpo
que pertence a alguém que “acreditará” nos seus berros e
que aliviará seus desejos com braços abertos.
Porque
tanta incompetência na nossa sociedade? Desde a infância,
somos ensinados a não acreditar no nosso conhecimento
instintivo. Falam
para nós pais que educadores sabem melhor e quando nossos
sentimentos não se alinham com suas idéias, nós temos que
estar errados.
Condicionados
a desconfiar ou ter total descrença nos nossos sentimentos,
estamos facilmente convencidos a não acreditar no bebê quando
seus choros dizem “Você deveria me segurar!”, “Eu deveria
estar junto ao seu corpo!” “Não me deixe!” Ao contrário,
rejeitamos nossa resposta natural e seguimos a moda ditada por
“profissionais” em cuidados de bebês.
A perda de fé nas nossas certezas inatas nos leva a
procurar ajuda em um livro atrás do outro, conforme cada
informação falha.
É
importante entender quem são os profissionais reais.
O segundo maior profissional em cuidados de bebê está
dentro de nós, tão seguramente como reside em todas as espécies
que, por definição, tem que saber como cuidar de seus filhos.
O maior profissional de todos, naturalmente é o bebê –
programado em milhões
de anos de evolução para sinalizar aos adultos, por sons e ações,
quando o cuidado está incorreto.
A
evolução é um processo de refino que afiou nosso
comportamento inato com precisão magnífica.
O sinal do bebê, a compreensão do sinal pelo adulto, o
impulso de atender – tudo isto é parte do caráter da nossa
espécie.
O
intelecto arrogante mostrou
ser mal equipado para definir as necessidades autenticas de bebês
humanos. A questão
muitas vezes é: Deveria
eu pegar o bebê quando chora? Ou deveria deixa-lo chorar por um
tempo? Ou deveria deixar chorar para que esta criança entende
quem manda e não vire um tirano?
Nenhum
bebê iria concordar com qualquer uma destas imposições.
Todos eles nos mostram com sinais claros que de jeito
nenhum deveriam ter sido deitados.
Como esta opção não foi defendida na civilização
ocidental contemporânea, o relacionamento entre pais e criança
permaneceu animoso. O jogo foi como fazer o bebê dormir no berço,
independentemente do choro do bebê.
Ainda que o livro de Tine Thevenin, “The Family Bed”
(A Cama da Família), e outros tem aberto o caminho para a questão
de ter crianças dormindo com os pais, o principio importante não
foi bem esclarecido: Agir contra nossa natureza como espécie,
inevitavelmente leva a perda de bem-estar.
Uma
vez que entendemos e aceitamos o principio de respeitar nossas
expectativas inatas, seremos aptos para descobrir quais são
exatamente estas expectativas
– em outras palavras, o que a evolução nos acostumou
a vivenciar.
O
Papel de Formação da Fase “nos Braços/colo”.
Como
cheguei a ver a fase “nos braços/colo” sendo crucial para o
desenvolvimento de uma pessoa?
Primeiro, vi as pessoas descansadas e felizes nas
florestas da América do Sul carregando seus bebês para cima e
para baixo, nunca os colocando no chão.
Aos poucos, consegui ver a relação entre este simples
fato e a qualidade de suas vidas.
Mais tarde ainda, cheguei a certas conclusões sobre como
e porquê estando em contato constante com o adulto é essencial
para o estágio inicial pós-parto de desenvolvimento.
Por
um lado, parece que a pessoa carregando o bebê (geralmente a mãe
nos primeiros meses, depois freqüentemente uma criança de 4 a
12 anos de idade que leva a criança para a mãe para amamentar)
está providenciando o fundamento para experiências futuras.
O bebê participa passivamente em tudo que o carregador
faz: correr,
caminhar, rir, conversar, trabalhar e brincar.
As diferentes atividades, o passo, as inflexões da
linguagem, a variedade de vistas, noite e dia, as diferentes
temperaturas, umidade e aridez, e os sons da vida
na comunidade formam uma base para a participação ativa
que começará aos seis ou oito meses de idade, arrastando-se,
engatinhando, e depois caminhando.
Um
bebê que ficou este tempo deitado num berço quietinho ou
olhando as paredes do carrinho, e o céu, terá perdido a maior
parte desta experiência essencial.
Por
causa da necessidade da criança de participar, é importante
também que o adulto que toma conta não só se sente e olhe o
bebê e continuamente pergunte o que o bebê deseja, e sim leve
uma vida ativa ele
mesmo. Ocasionalmente não se resiste a cobrir o bebê de
beijos; porém, um bebê que foi programado para observar você
viver sua vida atarefada fica confuso e frustrado se você passa
seu tempo observando-o viver a vida dele. Um bebê que está
ocupado absorvendo o que é a vida, conforme vivida por
você, fica muito confuso se você o pede para dirigi-la.
A
segunda função essencial da experiência “nos braços/colo”
parece ter escapado da atenção de todo mundo (incluindo eu, até
meados de 1960); é proporcionar
aos bebês o meio de descarregar sua energia excedente até que
eles estão aptos a faze-lo sozinhos. Nos meses em que não
são capazes de se mexer por conta própria, bebês acumulam
energia pela ingestão de alimento e do sol.
Por isto, o bebê precisa um contato constante com o
campo energético de uma pessoa ativa que possa descarregar o
excesso não utilizado para ambos. Isto explica porque os bebês
Yequana eram tão estranhamente relaxados – porque não
enrijeceram, não chutavam, não se arqueavam ou flexionavam
para se aliviarem de um acumulo desconfortável de energia.
Para
proporcionar uma experiência otimizada de “nos braços/
colo”, temos que descarregar nossa própria energia com eficiência.
Rapidamente, a gente consegue acalmar um bebê agitado
correndo ou pulando com ele, ou dançando e fazendo o que ajuda
a nós mesmos eliminarmos o excesso de energia. Uma mãe ou um
pai que de repente precisa sair para pegar algo, não precisa
dizer: “Ei, segure o bebê. Vou rapidinho na loja”.
Pode levar o bebê junto – quanto mais ação, melhor!
Bebês
– e adultos – sentem tensão quando a circulação de
energia nos seus músculos está sendo impedida.
Um bebê cheio de energia não descarregada está pedindo
ação: um galope
pululante pela sala ou um vôo segurando suas mãos ou pés.
O campo energético do bebê imediatamente será
beneficiado pelo descarregamento de energia do adulto.
Bebês não são as coisas frágeis que temos tratados
com luvas de pelúcia. De
fato, um bebê tratado como frágil na fase em formação pode
ser convencido que é frágil de verdade.
Como
pais, vocês prontamente podem alcançar o domínio que
acompanha a compreensão do fluxo energético.
No processo, vocês irão descobrir muitas maneiras de
ajudar o seu bebê a reter o tônus muscular macio do bem-estar
ancestral e dar ao seu bebê o sossego e conforto que uma criança
precisa para se sentir em casa no mundo.
Copyright
1991, Jean Liedloff
Leia
mais à esse respeito!
Copyright ©1998 by The Liedloff Society for the Continuum
Concept, All Rights Reserved. www.continuum-concept.org
|